Quando se fala em saúde de um negócio, salta logo o lucro. Mas há uma pergunta que apanha muitos empresários desprevenidos: se a empresa deu lucro, porque é que não há dinheiro na conta para pagar o mês? A resposta está na diferença entre duas coisas que costumam ser confundidas: o lucro e a tesouraria.
1. Não são a mesma coisa
O lucro é um resultado contabilístico: as vendas de um período menos os gastos desse período. É um número que se apura no papel, no fim do mês ou do ano.
A tesouraria é o dinheiro que está mesmo na conta, e sobretudo quando entra e quando sai. É o que permite (ou não) pagar salários no dia 30.
São dois mundos. Uma empresa pode ter lucro e ficar sem dinheiro; e pode ter um mês de prejuízo com a conta cheia. Confiar só no lucro para saber se o negócio aguenta é olhar para metade do quadro.
2. Porque é que os dois números divergem
A causa quase sempre é o tempo. O lucro regista uma venda no momento em que a fatura é emitida; a tesouraria só mexe quando o dinheiro entra de facto. Entre um e outro há um fosso, e é nesse fosso que muitas empresas se afogam.
- Vendas a crédito: faturou hoje (conta como venda e como lucro), mas só recebe a 30, 60 ou 90 dias. O lucro sobe já; o dinheiro chega mais tarde.
- Pagamentos com data fixa: salários, renda, fornecedores e Segurança Social saem em datas certas, tenha o cliente pago ou não.
- IVA: a empresa cobra o IVA nas vendas e é obrigada a entregá-lo ao Estado nos prazos legais. Se o cliente ainda não pagou a fatura, está a entregar IVA que ainda não recebeu.
- Stock: comprar mercadoria é dinheiro que sai já, mas só vira gasto (e afeta o lucro) quando a mercadoria é vendida. Até lá, é caixa parada no armazém.
- Investimento e amortizações: comprou uma máquina e pagou-a toda de uma vez, mas na contabilidade esse custo dilui-se por vários anos. O lucro parece saudável enquanto a conta ficou vazia.
- Empréstimos: a parte de capital que devolve ao banco sai da tesouraria mas não conta como gasto, logo não baixa o lucro. Mais um sítio onde os dois números seguem caminhos diferentes.
3. Um exemplo que mostra o problema
Imagine uma empresa que num mês fatura 20.000 euros e, no papel, fecha com 4.000 euros de lucro. Contas certas, resultado positivo. Agora o que se passou na conta:
| Movimento | Valor | Já mexeu na conta? |
|---|---|---|
| Faturado no mês | €20.000 | Só €5.000 recebido; €15.000 a 60 dias |
| Pago a fornecedores (a pronto) | −€8.000 | Sim, saiu |
| Salários | −€5.000 | Sim, saiu |
| Renda | −€2.000 | Sim, saiu |
| IVA a entregar | −€2.000 | Sim, saiu |
| Saldo real de tesouraria | −€12.000 | Faltam 12 mil para fechar o mês |
Lucro de 4.000 euros, tesouraria a menos 12.000. A empresa está a ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, sem dinheiro. É este descompasso que trava tantos negócios pequenos, muitas vezes numa fase de crescimento, quando as vendas sobem mais depressa do que os recebimentos.
4. Como não ser apanhado desprevenido
Gerir a tesouraria não é complicado, é uma questão de a olhar de frente e com antecedência:
- Ter um mapa de tesouraria: uma previsão simples das entradas e saídas reais das próximas semanas, feita com datas de recebimento e de pagamento, não com faturação. É o que avisa de um aperto antes de ele chegar.
- Trabalhar os prazos: receber mais cedo (adiantamentos, pronto pagamento com desconto) e pagar no prazo combinado, sem apressar. Cada dia conta.
- Ter uma almofada: uma reserva que cubra um a dois meses de despesa fixa evita que um atraso de um cliente se transforme num problema de salários.
- Olhar sempre para os dois números: lucro e saldo de tesouraria, lado a lado. Um sem o outro dá uma imagem enganadora do negócio.
É exatamente esta leitura que fazemos com os nossos clientes: mostrar não só se a empresa está a dar lucro, mas se tem, mês a mês, o dinheiro para continuar a andar.
Sabe se a sua empresa tem lucro e tesouraria?
Ajudamos a montar o mapa de tesouraria, a antecipar os apertos e a ler os dois números que decidem se o negócio aguenta. Sem jargão.
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